08/10/2015

Versão (linda) de "Conversa de botas batidas", música dos Los Hermanos

Já parou pra pensar como é difícil para um músico ser bem aceito tocando e/ou cantando uma música de outro músico? Quando você ouve alguém fazendo uma versão de uma música ou banda que você ama, certamente a primeira impressão que você terá dele é "Ahhh que chato! Prefiro mil vezes a original.". Sei disso porque eu também faço isso às vezes, não nego.

Mas vamos pensar: TODOS os músicos já fizeram versões de outros cantores/bandas e foram influenciados por elas, certo? Sim, afinal, como diria Aristóteles, o homem aprende por imitação.
Tenho um certo ciúme com relação às bandas que ouço e se alguém se aventura em tocar músicas delas e, principalmente, composta por elas, aí fica mais difícil ainda aceitar a versão com bons olhos.

Hoje eu trouxe uma versão de uma música dos Los Hermanos, composta pelo meu querido Marcelo Camelo (que encontra-se num nível acima do humanístico) chamada Conversa de Botas Batidas.
O atrevido foi um carioca de 29 anos chamado Cícero Rosa Lins. Atrevido sim! E ainda digo-lhes o porquê. O cara foi lá, pegou uma música do Marcelo Camelo (repito, ele não está no nível normal da coisa), uma música que foi toda baseada numa triste e bela história real de amor e decide fazer uma versão. Até aí, tudo bem. Isso se o atrevido do Cícero não ousasse em colocar no meio da música um trecho de "Memória": poesia de ninguém mais, ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade. Pois é, meus amigos. O cara fez isso e, quer saber? Acertou em cheio!

Posso falar? Sou grata pela existência desse rapaz, minha gente.
Cícero é sutileza, belas letras, paradoxos e harmonia numa coisa só. É mistura de de tudo mais belo que existe em forma de música, é expressar o amor acima de todas as coisas mais nobres do mundo. É o mais novo gênio da música brasileira contemporânea, meus queridos! Ouçam sem dó porque é de graça e só faz bem para a alma!

Nesta letra, Camelo descreve o amor de duas pessoas que mantiveram um romance secreto durante anos. Um casal heterossexual, ele casado com outra mulher e ela com outro homem. Se encontravam escondido num apartamento pequeno. Com o tempo, ambos ficaram viúvos e, assim, livres para viverem o grande e intenso amor que fizeram deles, amantes incondicionais. O apartamento onde eles se encontravam estava prestes a desabar e os dois decidiram ficar lá mesmo que tudo fosse ao chão pois foi, durante a vida deles, o lugar onde eles mais foram felizes. Fizeram uma passeata na Avenida onde localizava-se este apartamento em homenagem ao casal, que morreu com seu desabamento.
Marcelo Camelo, obrigada por existir! Cícero, obrigada por manter viva e ainda mais poética essa música tão incrível.
Senhoras e senhores, eis o atrevido menino de 29 anos que tanto falei para vocês, juntamente com a letra mais incrível de todos os tempos e a poesia de Drummond que está entre a versão de Cícero.



Poesia "Memória" de Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Letra da música "Conversa de Botas Batidas", composta por Marcelo Camelo

Veja você, onde é que o barco foi desaguar
A gente só queria o amor
Deus parece às vezes se esquecer
Ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
Que a gente vai passar

Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder
E se amar, se amar até o fim
Sem saber que o fim já vai chegar

Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem

Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Diz, quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além
Vão dizer, que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela vai cair


Publicado por Aline Dias (Sem graça)

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